Sobre como tudo começou e a inspiração que dá nome à primeira coleção

Lembranças de Josefina

Às vezes, por alguns segundos, fecho meus olhos de modo a recordar em que momento foi que comecei a gostar de criação, design, arte, costura, bordado, etc… Percebo então, que o pensamento me leva rapidamente para algo ligado à infância. Como não seria? 

Entre minhas mais queridas lembranças da infância, algumas estão ligadas à costura. A mais antiga e talvez por isso tão importante em minha memória, está a recordação de minha querida avó materna Blange Josefina e de sua máquina de costura, com base em ferro fundido e trabalhado, ainda movida à pedal e encoberta de uma capa florida. 

Sentava-se à sua máquina com tantas gavetas que transbordavam de engenhosos apetrechos, linhas, agulhas e gizes. Mantia junto a si, na aba da máquina, um prato de porcelana inundado de doces variados, aos quais chamava de caramelos, com um delicioso sotaque afrancesado.

Vovó Josefina, servia os doces aos netinhos enquanto costurava. Vestia a família, a casa e a si mesma dos mais coloridos tecidos de chita arrematados com plissados e babados. Sua casa, suas roupas, seus utensílios, seu jardim, sempre inundados de flores, plantadas sempre aleatóriamente, de diversas cores e perfumes.

Seguindo a herança de habilidade, minha amada mãe Anaídes também passava muitas horas sentada em sua máquina de costura, agora motorizada. Com o mesmo zelo de minha avó, mamãe vestia também suas três pequenas bonecas com vestidos de muitos babados e a casa com aqueles conjuntos coordenados, moda da época, tudo decorado com belíssimos bordados feitos à mão e à máquina. Tudo perfeitinho, em frente e verso. Por certo, hábito e carinho cuidadoso adquirido com a mãe e aprimorado com um garboso curso por correspondência postal, a vanguarda daqueles tempos.

Assim eu me criei embaixo da máquina, brincando com retroses, carretéis, carretilhas, trenas, retalhos de tecidos, e muitos outros objetos que me faziam usar a imaginação. Tamanho era o meu desejo de costurar que, após muita observação, aproveitei de uma escapada de minha mãe para a cozinha, e simplesmente me sentei à máquina e costurei um vestido de boneca. Pode acreditar. Sem fazer um único questionamento sobre corte, costura, alinhavo ou todas aquelas engrenagens, troquei a linha, ajustei o ponto e uni perfeitamente alguns pedaços de uma renda que sobrara de uma cortina. Foi assim então, que aos 8 anos produzi um pequeno vestido de noiva sob medida para Monize, a boneca de minha irmã. Com mangas longas, cintura marcada por uma faixa com laço, duas camadas de babados na barra e uma na gola. Assim, perfeito, pra mim.

Essa é a história do nascimento da minha paixão pela costura, pelo bordado, pela criação, pelo design, pela arte, pelo belo. Paixão que me acompanha a vida toda e que não sai de mim, mesmo com minhas longas andanças pela Engenharia da Computação, a vida sempre me coloca de volta àquilo que pulsa no meu coração.

Assim eu segui, desenvolvendo intuição e sensibilidade, alguma criatividade, muita curiosidade e paciência e me dediquei a criar muitas coisas até o dia em que me deparei com o desejo e a oportunidade de criar a minha própria grinalda de noiva. É como se eu tivesse me preparado até então para àquela criação, a criação de um adorno de cabelo que mudaria o rumo de muita coisa em minha vida. Foi como a realização de um sonho, e a partir desse sonho, minha realidade mudou.

A partir de então, eu revivo esse sonho a cada dia, criando acessórios de cabelos para noivas. E assim, cada peça, que contém um pouco da minha história e do meu amor, é tratada como uma pequena obra de arte que irá adornar o sorriso de uma noiva, sorriso que ficará registrado para sempre nos retratos de um dos dias mais felizes já vividos.

Sigo criando peças que alegrem e embelezem àquelas que a elas se rendem. Sempre levando à frente a beleza das flores que encharcam minhas lembranças, que guiam minha imaginação, muitas vindas das memórias dos dias vividos na casa de minha avó Josefina, minha Josefina, Ma Josephine…

Elizabete Munzlinger, 2009.

Ma Josephine Collection Editorial by Elizabete Munzlinger